A (in) visibilidade do transtorno mental do trabalhador


Publicado em 26/07/2019 09:26

Arquivo Pessoal/Divulgação


* Por Isabel Cristina Izzo

"Um primeiro princípio de liderança é que esta é uma relação entre líder e seguidores, sem seguidores não há o que liderar” (Peter Druker)

O ambiente de trabalho, onde normalmente as pessoas passam em média um terço do seu tempo diário, pode apresentar um viés hostil, desagregador e desmotivador, onde não há valorização do ser humano, como também pode se constituir um ambiente acolhedor e motivacional, quando os gestores conseguem prioritariamente desburocratizar e incentivar o diálogo e a comunicação, delegar tarefas com demonstração de apoio, interesse, confiança, e desenvolver no grupo o sentimento empático.

Para liderar pessoas, é preciso gostar delas, para poder conhecê-las. Antes disso, é preciso conhecer a si e às suas próprias emoções, enxergar a si e aos outros como seres humanos multifacetados, com seus aspectos biológicos, sociais, emocionais, econômicos, educacionais, dentre outros. Não considerar o ser humano como um todo, é fragmentá-lo, deslegitimá-lo, violentá-lo.

Segundo K. Cooper e Sawaf (1997), “desenvolver a percepção dos sentimentos próprios e dos sentimentos dos colaboradores é o caminho para uma convivência mais harmônica no ambiente de trabalho e na vida pessoal”.

Para Goleman (2007), “as emoções são as fontes mais poderosas de poder pessoal, os sentimentos proporcionam informações vitais para o gerenciamento e a motivação de pessoas”.

Um fato ocorrido em 2017, nos Estados Unidos, e publicado pela psicóloga Ana MerzelKernkraut, pode servir como exemplo para a nova maneira de interação organizacional que ratifica a valorização das emoções, que possibilita a compreensão de que exigir que um profissional trabalhe em situações de limite emocional, não é saudável para ninguém: “Uma funcionária não estava se sentindo bem psicologicamente para ir ao trabalho e enviou um e-mail ao seu chefe. Ele prontamente respondeu sugerindo um dia de folga para a funcionária e orientou-a a procurar um profissional da saúde que pudesse auxiliá-la”.

Dores emocionais podem não ser tão “visíveis” como o são as físicas, mas sua inobservância pode levar ao caos psicológico, podendo aniquilar  a vida profissional de uma pessoa, se não forem precocemente diagnosticadas e tratadas.

Segundo a Secretaria da Previdência do Ministério da Economia, “os transtornos mentais e comportamentais têm afastado muitos trabalhadores no Brasil. Episódios depressivos, por exemplo, geraram 43,3 mil auxílios-doença em 2017 – foi a 10ª doença com mais afastamentos. Mesma posição de 2016. Enfermidades classificadas como outros transtornos ansiosos também apareceram entre as que mais afastaram em 2017 (15ª posição). Foram 28,9 mil casos. O transtorno depressivo recorrente apareceu na 21ª posição entre as doenças que mais afastaram. Foram 20,7 mil auxílios”.

No livro “Understanding Abnormal Behavior” (Entendendo o Comportamento Anormal), seus autores, David Sue, Derald Wing e Stanley Sue, comentam que uma grande parte da população mundial apresenta algum tipo de fobia, seguido de alcoolismo, depressão, adicção a drogas, personalidade antissocial, transtorno obsessivo compulsivo, pânico e esquizofrenia.

Adotar uma postura mais empática, possibilitar o acesso dos trabalhadores a programas de atividades físicas e de relaxamento, desmistificar e falar mais sobre questões emocionais por meio de conversas ou grupos terapêuticos e concomitantemente minimizar desgastes, pressões, assédios e bloqueios na comunicação, podem ser medidas agregadoras para a melhoria do ambiente de trabalho, possibilitando torná-lo acolhedor, altruísta, atraente, afetivo, favorecendo sobretudo a saúde mental e promovendo maior entrosamento e satisfação.


Isabel Cristina Izzo

Psicóloga-CRP 966/23

DPE-Gurupi.