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Direito Garantido

Mais que um documento, a dignidade: DPE-TO garante registro de nascimento à idosa de 110 anos

Conteúdo atualizado dia 21/08/2026 às 15h35“Francisca Antônia de Jesus. Nasci nos ‘campo’. Eu nasci 6 horas da manhã, em 1916. A minha mãe me disse e eu nunca esqueci.” A fala de dona Francisca mostra que ela sempre soube exatamente quem era.…

Autor(a): Gisele França/Comunicação DPE-TO

Dona Francisca exibe orgulha sua Certidão de Nascimento, documento que só chegou após mais de um século de vida
Dona Francisca exibe orgulha sua Certidão de Nascimento, documento que só chegou após mais de um século de vida — Rafael Batista/Comunicação DPE-TO

Conteúdo atualizado dia 21/08/2026 às 15h35


“Francisca Antônia de Jesus. Nasci nos ‘campo’. Eu nasci 6 horas da manhã, em 1916. A minha mãe me disse e eu nunca esqueci.” A fala de dona Francisca mostra que ela sempre soube exatamente quem era. Guardou no peito, com orgulho e extrema lucidez, cada detalhe de sua origem. Mas para o Estado brasileiro, essa memória centenária não tinha validade jurídica pela falta do documento de registro civil. Uma invisibilidade civil que chegou ao fim agora, aos 110 anos, após a atuação da Defensoria Pública do Estado do Tocantins (DPE-TO), que transformou as lembranças de uma vida inteira em um direito oficialmente reconhecido.

Nascida no Piauí, em um antigo povoado próximo à cidade de Fronteiras, Francisca faz parte de um grupo de quatro irmãos. Ela relata que, na sua infância, o acesso ao registro civil e à educação era uma realidade distante. “Fazia nada [registrar]. Não botava nem a gente na escola porque não tinha professor. O professor tinha que levar para casa. Só quem era rico levava, botava dentro de casa para zelar dele. Nós criamos tudo bruto, só eu e meus irmãos. Eles aprenderam [a ler], mas eu não. Depois que eles nasceram, nós fomos para Fronteiras e minha mãe ‘botou’ eles para estudar”, recorda.

E foi assim, sem acesso à escola e sem documentos, que ela viveu a maior parte da sua vida. “O documento era só dizer o nome e pronto. Trabalhava na roça, apanhando algodão, feijão, milho... Tudo isso, graças a Deus, eu fazia.”

Os desafios da invisibilidade
A neta de Francisca, Maria Geralda de Carvalho [foto abaixo], conta que foi por meio do Batistério — a Certidão de Batismo emitida pela Igreja Católica — que a avó conseguiu a emissão de sua Carteira de Trabalho, que passou a ser seu único documento oficial. Foi com ela que dona Francisca conseguiu se aposentar e, posteriormente, emitir o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) em uma agência dos Correios. Dessa forma, ela seguiu a vida nas últimas décadas.

Porém, mais recentemente, o benefício da aposentadoria foi bloqueado. O banco onde ela recebia deixou de aceitar o antigo cartão magnético e orientou a abertura de uma conta bancária corrente. “Mas para abrir a conta, precisava de RG. E para ter o RG, precisava da Certidão de Nascimento”, explica Maria Geralda, lembrando o momento em que começou a saga pelo registro civil da avó.

Maria buscou registros cartoriais na região Nordeste, de onde a família é originária, mas esbarrou na burocracia. Pesquisas também foram realizadas na tentativa de localizar dados da mãe de dona Francisca, mas sem sucesso. Foi então que, neste ano, a família decidiu buscar a orientação da Defensoria Pública do Tocantins. E com isso, a história ganhou novo rumo!

"Fomos à Defensoria apenas em busca de informação, sem levar nenhum documento. O atendimento foi muito rápido: já nos encaminharam para o defensor, que entrou em contato com os órgãos e fez o pedido. Esperávamos a audiência apenas para o dia 16 de maio, mas, bem antes disso, nos ligaram avisando que a certidão já estava pronta no cartório. Fomos buscar e já a levamos para fazer a identidade”, comemora a neta.

Agora, o sentimento é de pura celebração. “É muito bom, porque hoje ela tem documento, ela é alguém perante a lei. E ela tinha muita vontade de ter, principalmente a identidade, porque via que todo mundo tinha e ela não. Para tudo hoje em dia você precisa de um documento.”

Empenho e compromisso social

Para que Francisca Antônia conquistasse o direito de existir oficialmente, as equipes da 11ª Defensoria Pública da Fazenda e Registros Públicos e da 17ª Defensoria Pública de Execução Fiscal não pouparam esforços.

O defensor público Fábio Monteiro [foto abaixo], titular da 11ª DP, destaca a singularidade e urgência da demanda. “Houve toda uma diligência, um cuidado humanizado com a situação dela. Dedicamo-nos intensamente à busca e ao contato com institutos de identificação e órgãos públicos para reunir as respostas necessárias e judicializar o caso, com um pedido de tutela antecipada, que foi prontamente concedido pelo juiz. A atuação da Defensoria para garantir o direito dessa assistida foi fundamental e determinante.”

Para ele, ver dona Francisca com seu registro de nascimento em mãos é a maior recompensa. “É um sentimento de realização profissional gigantesco. Foi visível a satisfação de toda a equipe do gabinete quando saiu a liminar. A gente percebe que o nosso trabalho realmente chegou às mãos de quem mais precisa. É uma satisfação profissional e pessoal ver que a Defensoria faz a diferença, transformando a vida das pessoas de forma real”, conclui.

Registro Tardio
O caso de dona Francisca ilustra a realidade do chamado registro de nascimento tardio, um procedimento legal garantido pela Lei dos Registros Públicos (Lei nº 6.015/1973) para cidadãos que, por motivos diversos, não foram registrados na infância.

De acordo com as normas da Corregedoria Nacional de Justiça, o processo pode ser feito diretamente em cartório quando há documentos mínimos ou testemunhas. No entanto, quando as buscas não encontram pistas do paradeiro de certidões antigas ou dados dos pais — como ocorreu com a família —, a intervenção judicial por meio da Defensoria Pública torna-se o único caminho viável para romper o ciclo da invisibilidade civil e garantir o acesso a direitos básicos e benefícios sociais.

No primeiro semestre deste ano (janeiro a junho) a Defensoria Pública realizou 22 atendimentos sobre certidão de nascimento tardia, como é o caso de dona Francisca. Considerando todos os atendimentos relacionados à documentação pessoal tardia, que além de certidão de nascimento incluem certidão de óbito tardia e registro de nascimento fora do prazo, foram 183 atendimentos de janeiro a junho de 2026, conforme dados aferidos pelo Setor de Estatística da Corregedoria Geral da Defensoria Pública.

Quem pode ser atendido
Na DPE-TO, qualquer pessoa com renda individual mensal de até 2,5 salários mínimos ou renda familiar de até 4 salários mínimos, pode ser atendida, entre outros critérios previstos na Resolução nº 170/2018 do Conselho Superior da Defensoria Pública (CSDP).

O agendamento é feito presencialmente, em uma das unidades de atendimento, e também pela internet no site da Instituição: www.defensoria.to.def.br na seção “Agendamento online”. O atendimento oferecido é integral, gratuito e de qualidade.

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