Crianças são incentivadas à leitura e ao resgate da cultura

A cada comunidade quilombola visitada são muitas as crianças acompanhando os pais em busca dos direitos que possuem. Enquanto homens e mulheres recebem atentamente as informações, orientações jurídicas e relatam as dificuldades encontradas nos locais onde vivem, os meninos e meninas têm um local reservado para ocupar de uma forma diferente o tempo de espera até o final das reuniões.
Esse espaço é a Brinquedoteca Itinerante. Ali num cantinho reservado fica à disposição de meninos e meninas um número considerável de livros, gibis, lápis de cores, giz de cera, desenhos para colorir e materiais como elásticos para incentivar o resgate a brincadeiras tradicionais esquecidas pelo tempo.
“Esse elástico eu nunca tinha brincado, é bom que posso chamar minhas amigas e a gente pode inventar várias formas de brincar”, conta Mariane França, de 10 anos, que descobriu no elástico esticado a possibilidade de se divertir e curtir de forma descontraída, enquanto os pais participam da atividades promovidas.
A menina Elaine Ribeiro Miranda, também de 10 anos, se encantou com as revistinhas em quadrinhos. “É tudo tão colorido e cheio de historinhas divertidas, eu nunca tinha visto esse tipo de livro; aqui a gente lê mais nos livros da escola”, fala uma alegre menina festejando pela possibilidade de ler vários gibis.
A cada lugar a criançada se encanta com o tapete vermelho repleto de possibilidades. “Eu gostei muito, ganhei esse desenho pra colorir, tem esse monte de coisas pra gente ler, mas vai ficar aqui só hoje né?”, indagou um serelepe menino, o Lucas Silva, que visitou o espaço enquanto esperava o transporte escolar.
“O mais importante e gratificante é que apesar das dificuldades existe uma criança que te recebe com um sorriso no rosto e se despede com os olhos lagrimejando por não poder ficar mais. É preciso que os direitos das crianças sejam cumpridos de Norte a Sul do País para que não haja crianças infelizes. E a Defensoria Pública do Tocantins, através do Pedagogo, tem procurado resgatar a cultura das comunidades rurais e solucionar os entraves educacionais vivenciados por essas comunidades violadas pelo seu direito”, conta o pedagogo Aronildo Pereira Rodrigues – o analista é lotado na Defensoria Pública de Dianópolis, a primeira Unidade a levar a Brinquedoteca além das salas.
Brinquedoteca Itinerante
Surgiu da necessidade de prestar um atendimento diferenciado às crianças das comunidades rurais que têm seus direitos violados, da informação, Cultura, Lazer, Esportes e diversões. A Brinquedoteca chega até as crianças assistidas, resgatando a cultura herdada pelos antepassados e esquecida pela nova geração. Através das brincadeiras de pular elástico, pular corda, jogos, quebra–cabeça, música infantil, diversidades de desenhos para colorir que faz parte da sua cultura e de personagens do mundo infantil que para muitos ainda são desconhecidos. A Biblioteca também é uma atração para as crianças e adolescentes com vários acervos, possibilitando com isso mais conhecimento e despertando o hábito de ler, por esses motivos e outros se faz fundamental papel do pedagogo.
A Brinquedoteca Itinerante vai além das atividades lúdicas, recreativas e culturais. Tem o objetivo de conhecer os problemas educacionais que as comunidades enfrentam, através de entrevistas com crianças, adolescentes, professores e pais das comunidades visitadas.
São vários os problemas que afetam o ensino aprendizagem das crianças assistidas: falta de transporte escolar, estradas precárias; estrutura física péssima, a falta de saneamento básico. Professor ministrando aulas ainda em sistema multisseriado, falta da educação infantil, piso salarial.
- Transporte Escolar: Alunos que andam até 18 quilômetros a pé para estudar e permanecem na escola a semana toda sem ver seus familiares devido à falta de transporte escolar e o péssimo acesso à escola pelas estradas esburacadas. Outros acordam às quatro horas para ir à escola; só existe um ônibus escolar para fazer a locomoção dos alunos de diversas localidades, provocando assim o cansaço físico e mental das crianças.
- Estrutura Física: Escolas em péssimo estado, falta energia elétrica, água encanada, carteiras, mesas; a água é imprópria para o consumo humano, chega até a escola em galões sem nenhum tratamento. Não existem banheiros e as crianças fazem sua necessidade fisiológica ao ar livre.
- Educação Infantil: Embora seja obrigatória a matrícula a partir dos quatro anos de idade na educação infantil, nas comunidades rurais ainda é um sonho. As crianças só terão o seu primeiro acesso na escola a partir dos seis, sete anos de idade, provocando assim a distorção idade/série; alunos com 16 anos de idade que deveriam estão cursando o ensino médio ainda se encontram no 3º ano do ensino fundamental.
- Multisseriado: Em pleno século XXI ainda existe um professor ministrando aulas ao mesmo tempo no 1º ao 5º ano do ensino fundamental, dificultando o ensino aprendizagem dos discentes. O professor é obrigado a se desdobrar fazendo cinco planos de aula ao mesmo tempo para atender seus alunos, o que gera a dificuldade na aprendizagem, aumentando a evasão escolar, pois o professor finge que ensina e os alunos fingem que estão aprendendo.
- Piso salarial: Apesar de já ser lei desde 16/7/2008, o piso salarial dos professores nos municípios brasileiros ainda é um sonho principalmente nas comunidades rurais. Além de fazer o papel de vários ao mesmo tempo o salário não condiz com a realidade.
Autora: Alessandra Bacelar
